Tuesday, January 15, 2008

Haridwar e Srinagar

O circuito turístico na Índia tem três grande pólos. Agra, o Rajastão e Varanasi. Varanasi é a mais conhecida das cidades santas. Não só se cremam os corpos dos mortos, como também é local de peregrinação para os budistas. Penso que já todos vimos fotografias dos eremitas que saem de anos a anos debaixo das suas árvores, com os seus cabelos emaranhados e os seus corpos sujos da falta de um banho. Esses homens santos, que resolveram deixar tudo para trás, família, dinheiro, a vida, também são peregrinos nesta cidade. Mas mas em Delhi informei-me do que era Varanasi. Quando me disseram que era como Agra, turístico, resolvi mudar de plano. O que me interessava era ver a maneira como o povo interagia com o rio sagrado, os cabelos de Shiva, e para isso tinha mais duas cidades bem mais perto de Delhi. Uma é Rishikesh, a outra muito mais discreta, tanto que nem tinha hotel para dormir, era Haridwar. Nem que seja pelo título, pela minha aversão ao circuito turístico, a escolha era óbvia.

Quando olho para trás não deixo de me sentir mal por não estar no meio daquelas fotografias de Varanasi que me habituei a ver nas revistas de viagens pela Índia. Mas lá fez todo o sentido. Tanto mais pela cidade de Haridwar. Quem já visitou a Índia, Marrocos ou um país afim, habitua-se à ideia de estar constantemente a ser chamado para comprar isto ou aquilo. Nunca ouvi tanto “Hello” na minha vida, jurei por nunca mais atender um telefone assim. Em Haridwar, nada nem ninguém me chamava. Eu caminhava nas ruas, e era apenas mais um no meio de milhares de peregrinos. Com o tempo fui percebendo que enquanto as outras duas cidades se iam enchendo de turistas, em Haridwar não havia sequer quem fizesse dinheiro com turistas. Vi apenas um ocidental, daqueles que parece mais indiano que os próprios. No princípio disse-vos que, fora do circuito turístico, o povo indiano é lindo nos seus valores e no seu sorriso. Esta frase nasceu em Haridwar.

A cerimónia é enebriante. Milhares de pessoas juntam-se na berma do Ganges e aprontam-se a arranjar uma folha grande cheia de pétalas. Estas são queimadas, fazendo uma pequena chama que por obra divina não queima a folha. Os arranjos são enviados pelo Ganges abaixo, num espectáculo de nenúfares iluminados. Ao mesmo tempo, esses milhares de pessoas vão gritando e levando os braços ao alto, num uníssono assustador. As pessoas banham-se durante todo o dia. A todas as horas. A corrente, com o balanço ganho nos Himalias, é fortíssima. Existem correntes presas às margens a que todos se seguram enquanto mergulham, indo acima e abaixo na posição vertical, tapando a cabeça apenas por uma fracção de segundo.

Tinha pensado bem se deveria tomar banho ou não. Do ponto de vista pragmático, eu não me banharia no Tejo se a tempertura (estava um frio) fosse aquela. Nem em outro qualquer rio. E afinal, respeitando o pragmatismo, o Ganges significava tanto para mim como o Tejo. O sagrado só estava na cabeça daquelas pessoas. Resisti aos vários convites do Harish, que se ria dizendo que eu era a pessoa mais porca daquela cidade. Dormimos num Hashram, casa de peregrinos. Cada um paga o que quer, e tem-se uma cama, um lavatório e um buraco no chão. Mas estar no meio daquelas pessoas e brincar com as crianças punha o meu estado espírito de tal forma que me sentia no palácio do marajá mais rico. Penso que aprendi aí, que a felicidade pode vir das coisas mais insignificantes.

Tinha chegado a altura de dizer adeus a Harish. Disse-vos logo no início, que bastava 5 minutos com aquele homem e nunca mais seriam a mesma pessoa. E é essa a definição mais elogiosa possível no meu cardápio. De tanta má sorte que teve na vida, nunca terei eu aquele sorriso, mesmo com toda a boa sorte possível.

Só quando cheguei a Portugal é que disse aos meus pais que tinha estado 6 dias em Caxemira. Enquanto lá estava dizia-lhes estar nos Himalias. Apesar de saber bem que apenas me enganava a mim. Após Haridwar tinha a hipótese de ir para Varanasi ou para o sul da Índia, era esse o plano inicial. Até hoje não vos consigo explicar porque fui. Insensato concluímos todos, mas lembro-me de escrever quando cheguei, aqui estou eu, onde apenas os tolos vêm, e tão feliz por o ser. Um nobre muçulmano, quando chegou ao vale de Caxemira exclamou, a haver um paraíso na terra, então só pode ser aqui no vale de Caxemira. Deixo a descrição para as fotografias de Srinagar.

Caxemira é uma zona de guerra. Temos barricadas nas estradas, com sacos de areia e metralhadoras do tamanho de canhões de água por detrás. Em cada intersecção no centro da cidade existem 3 membros do exército indiano que revistam os Kashimirim que passam. O sentimento é misto, por um lado sentimo-nos seguros com tanto exército, por outro não queremos descobrir a razão que leva a tão grande dispositivo. Mas nem sempre foi assim. Durante a ocupação britânica era uma zona nobre de turismo. Os Ingleses fizeram milhares de casas barco, cada uma mais trabalhada que outra, e povoaram o sistema de lagos do vale. O nevoeiro e o frio parecem bem britânicos, e não me admirou nada o interesse Inglês . Pensava eu ser impossível ter mais frio. No presente o investimento Indiano em turismo na zona é elevado. O aeroporto está a ser convertido em internacional, e as infraestruturas de apoio ao turismo são desenvolvidas. Apenas não têm turistas para os experimentar. Em Caxemira existem os independistas apoiados pelo Paquistão, os independistas que não aceitam o apoio de ninguém, os pró-indianos, os que defendem a autonomia... Se juntarmos que Caxemira é nascente dos principais rios da Índia, está tudo montado para haver conflito constante. Lembro-me de falar com os locais e me dizerem que Jesus Cristo tinha lá estado, antes e depois da incursão que mudou a história. Até dizem que está enterrado numa gruta no meio dos Himalias... Hei-de um dia escrever um livro sobre isso.

Fiquei numa casa barco, donde tirei as fotografias mais bonitas que algum dia vou ver. A paz é enebriante, o kingfisher ou o mergulhão vai voando por cima das águas do lago até encontrar a sua presa, mergulhar num ápice e desaparecer durante segundos, que parecem uma eternidade imaginando os seus pulmões. O lago tem cerca de 5 metros de profundidade, a mesma altura que as algas que vão roçando na canoa, o único meio de transporte para as casas barco. Os recolhedores de algas vão apanhando-as e pondo na parte de trás do barco até este deixar a primeira gota. Nos intervalos vão fumando o seu cachimbo de água povoado do sempre constante ópio. Ao longe, ao perto, de todo o lado, numa das cinco horas marcadas por dia, escuta-se as três primeiras frases do Corão, repetidas por um sem número de vozes por detrás do microfone. Sentimo-nos pequenos perante o som da voz do imã e todos os que o seguem.

Tive companhia nos primeiros dias. Do meu povo favorito, em todas as viagens que tenho feito, sempre me dei bem com o povo australiano. Os tipos estão sempre bem e prontos a dizer qualquer coisa que nos põe um sorriso nos lábios. Na viagem pelo rio fomos vendo o mesmo que já tinha visto em Tigre perto de Buenos Aires, a maneira como as pessoas vivem apenas com água à volta. O barco escola, o barco do gás, o do supermercado, como todas as casas têm uma canoa à porta. Como as crianças de Srinagar vivem lado a lado com a opressão vinda de todos as correntes políticas no país, e mesmo assim conseguem jogar cricket em 10 metros quadrados de terreno com, claro, muitos mergulhos.

E foi assim que me preparei para a verdadeira aventura da viagem. Iria passar 3 dias nos Himalias, ia subir a 6000 metros com Kalick, o melhor cozinheiro do mundo.


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Haridwar

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Os cabelos de Shiva que deram origem ao Ganges.

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Os milhares que se banham no Ganges.

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Srinagar.

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Kalick.


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Thursday, January 10, 2008

Udaipur e Jaisalmer

Se querem uma vila de sonho, então essa é Udaipur. À volta do lago Pichola e o seu maravilhoso palácio de Verão, Udaipur está rodeada por montes, a terra vai acima e abaixo consoante se tenha ou não zangado com algum deus subterrâneo. Os palácios de água eram feitos em terra seca. Esta era depois inundada por uma barragem, fazendo o espectacular cenário de um palácio rodeado de água. Foi aqui que foi gravado o James Bond Octopussy, coisa que nos repetem insistentemente cada vez que se fala com um dos locais. Num dos cafés passava sem interrupção durante o dia todo.

Na subida de acesso ao forte, um templo carvado em pedra. A religião Hindu é em todo diferente de qualquer outra moderna. Começaram por ser apenas três Deuses, Brahma, Vishnu e Shiva. Terá sido uma mistura das divindades locais com as divindades trazidas pelos Arianos quando ocuparam grande parte da Índia há mais de 3000 anos. É engraçado ver suásticas pintadas nos carros, camiões, vendidas como artesanato na rua. Um símbolo que na Europa ainda nos faz arrepiar, lá é um de boa sorte. No casamento do Akshay, quando a união estava para acontecer, um pano branco com uma suástica vermelha estava entre os noivos, caindo apenas na hora em que se deviam casar.

Com três divindades, e sendo a reincarnação o passo após a morte, muitas das famílias poderosas dos vários reinos e clãs, declamavam que os seus antepassados eram reincarnações desses deuses ou filhos. Assim se criou Ganeisha, Anduman, Pavarti, Krishna... Eu sempre tive a queda por Krishna, afinal o tipo tinha um número milenar de namoradas ao mesmo tempo, número esse que mudava de indiano para indiano, mas sempre com muitos zeros à frente. Mas Harish sempre me dizia ser mais como Anduman, o que não me deixava no quinto céu, afinal Anduman nunca casou e era um guerreiro que ajudou Krishna a destruir um demónio. Mas Krishna ficava com as tipas.

O Budismo e o Jainismo surgiram como protesto à casta monge Hindu. Um pouco como Lutero criou o Protestantismo na Europa. O Budismo e o Jainismo caracterizam-se por não prestar homenagem a deuses, mas sim a pessoas iluminadas como Buda. Os ícones são de pessoas em posição de meditação, e se vos digo isto, é porque nunca vão poder ver uma fotografia, estas são fortemente proibidas. O adjectivo forte tem uma boa utilização aqui, as pessoas em frente aos ícones parecem formar um cordão de segurança numa vigília constante.

Assim como o templo a Anduman no meio das montanhas, parámos num templo Jainista entre Udaipur e Jaisalmer. As pessoas meditam com as mãos ao centro e vão repetindo o Ohm, o som que se ouviu quando o universo foi criado, literalmente, o som do Big Bang segundo a tradição Ariana, e uma letra no seu alfabeto.

Em Jaisalmer estamos a cerca de 100 Km do Paquistão, estamos perdidos no meio do deserto mas com a melhor companhia possível, o seu povo do qual o cameleiro de Pushkar era um ilustre representante. Depois do habitual pôr do sol seguimos para jantar perto de uma aldeia de casas de lama. O seguimento era dormir no deserto, e não vos escondo que sempre admirei as estrelas e as constelações. Os meus amigos dizem que gosto de contar a história das estrelas. Sempre pensei no que seria dormir no deserto, a dezenas de quilómetros da luz mais próxima. A lua estava nova, e a visão nocturna prometia ser incrível.

Durante o jantar bebi como um cacho. Não é aquele orgulho parvo, mas na verdade sentia-me entre amigos, todos estavam com o mesmo espírito, no meio daquelas casas de lama passei uma das melhores noites da minha vida. Os indianos de um lado, e os cinco ocidentais do outro rapidamente se transformou em todos juntos de cerveja na mão. Nunca me ri tanto na Índia, penso que simplesmente me sentia igual. Harish estava com os seus alunos, sendo um sénior na lide, havia jovens que lhe pediam ajuda a lidar com os clientes ou até mesmo a conduzir. Era um bando divertido aquele.

Quando à noite me deitei debaixo daquela abóboda celestial incrível, havia o dobro das estrelas e elas insistiam em andar às voltas. Digamos que para bem da saúde de quem me acompanhava resolvi guardar o sonho para uma outra vez.

Jaisalmer, ao contrário dos outros fortes que fui visitanto, tinha a cidade dentro de si, não sendo apenas a casa de um qualquer marajá. Pequenas vielas labirínticas, onde até as vacas tinham dificuldade em passar, fazem o interior deste forte do sec. XII, o mais velho da região. Com a crescente procura de quartos no interior do forte, o número de hóteis têm estado a multiplicar-se. O elevado consumo de água e o seu envio para um sistema de saneamento feito para uma cidade do deserto habituada a pouca água estão a destruir as fundações do forte. O movimento Inglês para a preservação do forte de Jaisalmer luta para a consciêncialização dos turistas para que fiquem acomodados fora do forte. Jaisalmer, juntamente com Udaipur, são as cidades que, sem dúvida, vale a pena visitar no Rajastão.

Seguia agora de volta para Delhi, na cabeça a aversão ao circuito turístico ia passando a raiva. Raiva essa que iria pesar na escolha dos próximos destinos.


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Udaipur

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Foi aqui gravado o Octopussy... Agora transformado em hotel de luxo.

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Cada vez que via um macaco na beira da estrada, Harish travava o fundo e tratava de os alimentar.

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Templo Jainista

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Jaisalmer

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Thursday, January 03, 2008

Jaipur e Pushkar

De todas cidades onde estive, Jaipur é sem dúvida a mais suja. Para além de toda a confusão normal, ainda temos a acrescentar porcos e um número cada vez maior de camelos. Capital do Rajastão, com 5 milhões de pessoas, tem o maior forte, antiga casa dos marajás. Antes de se tornar um estado da união indiana, o Rajastão existia num regime de clãs, transformados em marajás, onde famílias disputavam a hegemonia pela rotas comerciais que ligavam a Índia à Ásia Central.

Para além do forte, pouco há a dizer de Jaipur, à parte do melhor ponto para ver o pôr do sol. Foi aqui, numa esplanada a ver o sol a cair que me apercebi que os Indianos não tem grande resistência ao álcool. Para amenizar o Harish convidei-o para beber uma cerveja. Passado algumas Kingfisher, percebi que o tipo já se ria com as moscas que passavam ao nosso lado. Foi então que lhe comecei a perguntar pelas lojas e comissões. Como funciona o esquema? O tipo desmanchou-se todo, e fiquei a perceber como tudo na Índia é sobre o negócio. Its all about business, dizia Harish, frase que repetiu mais mil vezes cada vez que um indiano lhe vinha oferecer comissão para ele me levar a uma loja, ou a um homem santo. O acordo que fizemos foi simples. Eu dava-lhe o equivalente a três lojas por dia, e ele livrava-me de tudo o que fosse do género. E assim foi. Apesar de estar sempre a perguntar se eu queria comprar alguma coisa, nunca me tornou a enganar, e todos os seus conselhos foram bons. Never stop in the street...

E de facto, o segredo na Índia é nunca parar quando nos perseguem com ofertas. Armado de sorriso e pernas imparáveis. É a melhor maneira de estar na Índia. E foi assim que seguimos caminho, naquele lusco-fusco da madrugada em que a minha viagem começou a fazer sentido. Talvez por saber como me comportar. Ganhar aquela segurança em mim próprio que me fez saber como me comportar em qualquer situação.

Partimos a caminho de Pushkar. Cidade santa, e um dos maiores centros de peregrinagem da Índia e uma cidade que vive numa luta que assume contornos violentos. Pushkar é também a cidade onde se realiza, pelo mês de Novembro, o maior festival de camelos da Índia. Assim os cameleiros e os homens santos estão em luta constante pelos turistas. Na portagem à entrada da aldeia atacaram logo Harish, falando-lhe em indiano e prometendo-lhe comissão caso ele me levasse aos homens santos. Harish alinhava com os cameleiros, passo o ridículo da expressão. Eles não enganam ninguém. Quando passei no alto do camelo e vi os turistas a receber flores dos homens santos, para de seguida serem extorquidos do dinheiro que tinham, afinal as flores custam rupias, assim como as rezas, as boas sortes a todos os membros da família que são tão maiores quanto a contribuição, percebi que Harish tinha razão.

Em Pushkar comecei a fazer amigos ocidentais. Não vos faz ideia a vontade que tinha de falar com alguém que visse as coisas como eu. Partilhar a inversão de valores que ia sofrendo, partilhar a maneira como a Índia me ia mudando. Queria perceber se estava a ser normal, nesse conceito de normalidade que pensamos tão global, mas que rapidamente fica em dúvida na Índia.

Enquanto passava no camelo, o cameleiro era insultado e ameaçado pelos homens santos. Há expressões que nem na Índia necessitam de tradução. A repulsa perante aquela luta por turistas fez-me sentir mal. É o fruto daquela pobreza que Harish e eu víamos todos os dias, de vidro aberto e ar condicionado desligado porque simplesmente achava injusto poder tê-lo. Algo que nos faz pensar em esvaziar os bolsos, tirar a roupa até ficar mais nú que aquelas pessoas, para apenas chegar ao fim e perceber que nada podemos fazer para mudar a situação. Sentimo-nos pequenos e insignificantes. Não podemos fazer a diferença ali. E não conseguimos ser indiferentes. É a melhor definição que a Índia pode ter, o sítio onde é impossível ser-se indiferente.

O festival é uma feira de camelos. Pelo meio tem concursos como quantas pessoas conseguem ficar em cima de um camelo, atracções circenses, e centenas de famílias que descem do deserto que é partilhado com o Paquistão para fazerem o seu negócio. Sente-se que a mesma feira ocorre anualmente, imutável desde milénios. As pessoas dormem em tendas ou não, no meios dos animais, o meio de transporte é o camelo ou cavalo, e as mulheres urinam subindo a saia e agachando-se discretamente. Lembrei-me do meu avô. Ele percorria centenas de quilómetros de bicicleta para vender os sapatos que fazia na sua pequena oficina. Lembrei-me de todas as histórias sobre luz eléctrica, casa de banho, quartos em comum... Cheguei à conclusão que aquela realidade não está assim tão longe para mim. Que já não bastava ter nascido noutro país para ser igual àquelas pessoas, bastava ter nascido em Portugal trinta anos antes. Apercebi-me que somos todos filhos da experiência e da envolvente às nossas vidas, não somos mais nem menos que a pessoa ao nosso lado, tivemos apenas experiências de vida diferentes. Experiências que muitas vezes não podemos escolher.

O cameleiro perguntava-me de onde era. De Portugal, respondia com este orgulho patriótico que nunca sabemos bem de onde vem. A sua cara, e a sua dificuldade em repetir o nome entendia que nunca tinha ouvido de tal nação. Comecei a fazer o mapa-mundo, com um pauzinho no chão do deserto. Apontava-lhe os continentes, depois França, Espanha, e finalmente Portugal. Pouco fazia sentido pelos seus olhos. Quando lhe perguntei de onde era, sou do deserto. Paquistão ou Índia? Do deserto. Hindu ou muçulmano? Somos mais antigos.

Foi com uma secreta inveja que desisti de lhe incutir esse pedaço de informação. Inveja de ser como ele, livre desta fome de conhecimento que existe no meu mundo, como modo de nos provarmos a nós próprios aos olhos dos outros. Sempre aos olhos dos outros. Enquanto o seu povo fazia o jantar e eu esperava olhando o pôr do sol, percebi que a humanidade é tão diferente pelo o que nos faz felizes. As crianças brincavam com as cabras do rebanho, os homens brincavam com os tachos de arroz por detrás de mim, e riam. Um riso cujo adjectivo para classificar ainda vou demorar para encontrar. Aqui não existe.



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De Agra para Jaipur, no meio da montanha, o templo a Anduman o deus-macaco. As pessoas tomam banho antes de ir ao templo, e este está cheio de macacos por todos os lados. Dar comida aos macacos é considerado bom Karma.



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Jaipur

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Festival de camelos, Pushkar

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O rapaz cameleiro na esquerda

Thursday, December 27, 2007

Delhi e Agra

De Mumbai apanhei um avião directo Delhi. Em Delhi e seguindo os conselhos do guia fui para a incrível Main Bazar. Uma coisa que temos que saber sobre os guias na Índia, é que a sua linguagem é bem pacífica, e esconde uma realidade bem diferente. A rua tinha uns três, quatro metros de largura, largura essa que estava preenchida de carros, motas, vacas, pessoas e sacanas cujo objectivo é apenas caçar turistas. A minha primeira incurção na Índia foi feita de mochilas às costas, guia na mão, à procura de um hotel, numa das piores zonas da cidade. Um totó na Índia.

Instalado, resolvi bater a estação de comboios e autocarros para arranjar a melhor maneira de correr o Rajastão e Agra. Ao aperceber-me de como as coisas funcionavam, como vos contei antes, resolvi cair nas mãos de uma das agências que existem na Main Bazar. Fui perguntando o preço até ficar satisfeito e com alguma confiança, sentimento que não abundou muito nesses primeiros dias. Durante esses mesmos dias aproveitei para conhecer Delhi. A primeira imagem que tenho é a de um elefante na autoestrada. A segunda, e que exemplificava bem o meu estado de espírito melindroso, eram as águias. Assim como aqui temos os pardais dos telhados, na Índia temos águias, ameaçadoras e imponentes. A sul de Delhi na lixeira que recolhe o lixo das 20 milhões de pessoas que a habitam, a visão que supreenderá qualquer um é a de um turbilhão de milhares de águias girando à volta de um eixo imaginário. Saberia mais tarde, que por debaixo, centenas de pessoas recolhiam o que podiam dessa lixeira, num macabro sistema de reciclagem.

Quando abre um sinal verde em velha Delhi e centenas de veículos, motorizados ou não, começam a ir na sua direcção, o que vemos desafia qualquer probabilidade de um simuladores de trânsito. Não há acidente nenhum. Mas o trânsito é um bordel. Não existem espelhos retrovisores. São substituídos pela buzina do carro que aí vem, ou seja, por cada ultrapassagem, se houver uma buzinadela, ou dois gritos no caso das bicicletas e carroças, uma linha desta folha não chegaria para contabilizar os participantes na sinfonia.

Andei com Harish pela cidade, ou Honey, dizia-me ele, que maior parte das pessoas não se lembravam do seu nome. Há muitas pessoas a pedir nas ruas de Delhi. No entanto, reparava que só as crianças me vinham pedir a mim. Havia ainda velhos magros de turbante na cabeça, cajado na mão, e o mais singular pedinte de todos, travestis que pediam no meio das filas de trânsito. Os dois últimos nunca me pediam nada a mim. Era Harish o alvo. À esquerda do volante, Harish já tinha as pequenas moedas que distribuía pelos vários que lhe batiam à janela. Quando uma criança me vinha pedir olhava-o de soslaio, e ele mandava-me fechar a janela. A culpa destas crianças estarem a pedir é dos pais, que não tomam conta da sua educação. E aos outros dás? É diferente, é um bom karma dar esmola aos homens santos e aos gay people, como lhes chamava.

Não gostei de Delhi. Talvez por ter sido o primeiro sítio onde pus os pés. Gostamos de nos dizer cidadãos do mundo, mas vi coisas em Delhi que não deveriam fazer parte de mundo algum. Dessas partes vou escusar-vos. O sentimento que cada um tem perde-se em palavras nos ouvidos de quem não passou pelo mesmo. Foi com um sorriso nos lábios que largei a capital indiana e parti rumo a Agra.

Agra é casa do majestoso Taj Mahal. O Taj, visto durante o nascer do sol, é como um camaleão, passa do branco pálido e morto a um edifício em chamas com os reflexos laranjas do sol que vai nascendo. A história do Taj é uma de amor. Conta-se que no seu leito de morte, a mulher do imperador Shah Jahan lhe terá dito, faz-me um sepulcro digno do nosso amor. Da Pérsia veio o arquitecto e durante perto de 20 anos o Taj foi sendo construído. Conta-se que, por ter uma outra mulher negra também finada, o imperador resolveu igualar a obra do outro lado do rio, mas desta vez em mármore preto. O filho e futuro herdeiro não gostou que tanto dinheiro fosse gasto nas obras do pai e tomou conta do poder. Aprisionou-o no forte de Agra, onde ainda hoje se tem a cadeira do imperador, onde este terá passado infindáveis dias vendo a construcção do Taj ao longe. A construcção do Taj preto está hoje em dia no seu início, no mesmo sítio onde o imperador planeava, apenas de menores dimensões. Quem realmente sofreu foi o arquitecto, que ficou com ambas as mãos cortadas, para que nunca tornásse a fazer uma obra igual.

Agra é o Taj, o forte, e milhares de lojas à volta. Turístico passa a ser um adjectivo realmente negativo naquela cidade. O Harish fazia o seu ordenado levando-me a lojas, recebia as suas 50 rupias de comissão e mais 5% de tudo o que eu comprasse. Na primeira caí que nem um pato. Queres ir ver uma demonstração de como o Taj foi feito? Claro. E foi assim que ganhei uma hora a ouvir um vendedor de mármores. Mas não foi tão negativo, havia realmente uma demonstração, de 30 segundos, onde podia ver uma sala cheia de crianças a trabalhar em mármore. Foi nessa altura, vendo as crianças a serem exploradas, que decidi nunca mais entrar numa loja indiana. Quando o Harish me perguntou se queria ver um amigo dele, e quando cheguei à porta me apercebi que realmente era uma loja, dei-lhe o sermão da vida. Seguíamos agora em silêncio para Jaipur, a caminho do deserto.



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Gateway of India - Monumento de homenagem aos mortos nas guerras.

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Zona do ministérios.

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Não haverá som como o da cítara. E não há sítio como a Índia para a ouvir ser tocada.

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